A urna agora cabe no bolso
Durante décadas, a política brasileira seguia um ritual previsível. O candidato praticamente desaparecia durante anos e, de repente, reaparecia no período eleitoral sorrindo em jingles, visitando feiras, abraçando crianças e prometendo soluções urgentes para problemas antigos.
Funcionava. Mas algo mudou profundamente. As eleições deste ano talvez consolidem uma nova realidade: a política deixou de acontecer apenas na campanha. Ela passou a existir todos os dias, dentro da tela do celular.
Hoje, muitos candidatos não disputam apenas votos. Disputam atenção contínua.
E isso altera completamente as regras do jogo que eu vivi como assessor de comunicação e marqueteiro de política. Enquanto alguns ainda apostam no velho modelo do “aparecer na reta final”, outros construíram presença digital diária. Comentam assuntos cotidianos, mostram bastidores, criam vínculos emocionais, respondem seguidores, gravam vídeos simples, aparecem imperfeitos e humanizados.
A lógica da internet premiou a permanência, que antes se dava no máximo, contratando um líder comunitário, ajudando financeiramente um projeto, um campeonato amador ou uma igreja.
O eleitor contemporâneo não quer apenas ouvir propostas. Ele quer sentir proximidade. E isso ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais visível: políticos tradicionalmente fortes começam a perder espaço para figuras que compreenderam a linguagem emocional das redes sociais.
Mesmo quando possuem menos estrutura partidária.
Mesmo quando possuem menos tempo de televisão.
Mesmo quando possuem menos experiência política.
Porque a autoridade institucional perdeu parte do seu monopólio simbólico.
O filósofo sul-coreano, radicado na Alemanha e conhecido por suas análises sobre a sociedade contemporânea, Byung-Chul Han descreve que vivemos na chamada “sociedade da transparência”, em que a exposição constante cria uma sensação artificial de intimidade. O cidadão sente que conhece alguém porque acompanha seus vídeos diariamente. A relação deixa de ser apenas política. Ela se torna emocional.
É por isso que muitos eleitores hoje confiam mais em alguém que aparece espontaneamente todos os dias do que em alguém que surge apenas em peças cuidadosamente produzidas durante a campanha.
A internet mudou a percepção de autenticidade e existe outro fenômeno importante acontecendo. Os conteúdos políticos passaram a obedecer à mesma lógica dos conteúdos virais.
A política aprendeu com os memes. Vídeos rápidos. Cortes acelerados. Frases curtas. Humor. Indignação. Narrativas emocionais. Tudo isso passou a valer mais do que discursos longos ou propostas complexas.
O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos tempos líquidos, em que relações, ideias e certezas se tornam rápidas, frágeis e instantâneas. A política digital parece ter absorvido exatamente essa lógica. O debate profundo perde espaço para a sensação imediata.
E talvez o mais curioso seja perceber que a internet atual nem exige perfeição. Pelo contrário.
Os conteúdos mais virais normalmente são os mais espontâneos, improvisados e emocionalmente exagerados. A estética excessivamente polida começou a gerar desconfiança. O algoritmo parece premiar aquilo que aparenta ser “real”.
É por isso que vídeos aparentemente simples muitas vezes superam campanhas milionárias.
O eleitor digital não reage apenas à produção. Ele reage à identificação.
A cientista política Shoshana Zuboff, pesquisadora estadunidense, alerta que as plataformas digitais transformaram comportamento humano em produto previsível. Curtidas, comentários, tempo de retenção e emoções passaram a alimentar sistemas capazes de compreender padrões psicológicos coletivos.
Na prática, isso significa que as campanhas modernas já não falam apenas para multidões. Elas falam para emoções específicas. Raiva. Medo. Esperança. Indignação. Pertencimento.
Cada algoritmo funciona como um mapa emocional do eleitorado.
E isso cria uma mudança histórica: pela primeira vez, talvez a eleição não seja vencida apenas por quem possui maior estrutura política, mas por quem consegue ocupar diariamente o imaginário digital das pessoas.
O problema é que existe um preço alto nisso tudo. Quando a política se torna refém da lógica das redes, surge o risco da superficialidade permanente. Surgem os Titiricas, os Canetas Azuis e coisas piores ainda, para o sistema político, que gere o futuro da sociedade.
O debate público começa a competir com vídeos de humor, trends, polêmicas instantâneas e conteúdos produzidos para provocar reação emocional rápida.
A consequência pode ser perigosa.
A popularidade passa a ser confundida com credibilidade. A performance passa a valer mais do que a coerência. E o carisma digital começa a substituir o conteúdo.
O filósofo Guy Debord antecipou isso ainda nos anos 1960 ao afirmar que a sociedade moderna caminhava para transformar tudo em espetáculo, inclusive a política. Décadas depois, talvez estejamos vivendo o auge dessa previsão.
As eleições de 2026 podem entrar para a história como as primeiras eleições verdadeiramente algorítmicas do Brasil.
Não apenas porque acontecerão nas redes. Mas porque serão moldadas emocionalmente por elas.
A urna eletrônica continua a mesma. Mas a decisão do voto, hoje, começa muito antes.
Ela nasce silenciosamente entre um meme, um vídeo de quinze segundos, um corte viral e a sensação diária de proximidade construída dentro da tela de um celular.
